Aldedaros, Os Espíritos das Sombras

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    Brandish
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    Aldedaros, Os Espíritos das Sombras

    Mensagem por Brandish em Sex Set 13, 2013 11:23 am


    A seguinte carta foi encontrada no cais do Ancoradouro Regato próxima a uma poça de sangue. Havia rastros de luta, mas nenhum corpo foi encontrado. Suspeita-se que o autor seja Dave Newster, desaparecido há quatro meses.

     

    A minha querida esposa,

    saiba que não estou certo da veracidade do que vem a seguir e torço para que o que escrevo seja apenas criação da mente de um homem afligido pela enfermidade e loucura. Tão pouco posso ter certeza de que os olhos que pousarão nessa missiva serão os azuis faiscantes que observei por tantos anos ou os odiosos orbes negros que vigiam cada movimento meu. Mesmo enquanto escrevo, minhas mãos tremem ao imaginar o que eles podem fazer a você. Eu rogo para que tenha um destino melhor do que o meu.

     

    Mais uma noite havia começado e eu estava cansado demais pra dormir. Queria adiar ao máximo a desoladora chegada da luz do sol, que traria consigo minhas responsabilidades. Apenas queria escapar da minha vida, qualquer coisa que me trouxesse alívio da rotina sufocante. As vezes, pensava em fugir, viajar de cidade em cidade, conhecer pessoas novas, lugares históricos. Talvez começar de novo, fazendo exatamente o que eu queria. Seja lá o que fosse isso. Meus pensamentos nunca foram muito precisos quanto a isso e nunca pensei que realmente fosse fazê-lo. Imaginava brigas e assaltos, casos de amor instantâneo e heroísmo. Era suficiente quebrar a rotina com algo simples e inofensivo. Queria a adrenalina, mas não queria me machucar e é preciso ser muito ingênuo pra pensar que coisas ruins só acontecem com pessoas más.

     

    Eu olhei pro meu carro, um Ford antigo, dado pelo meu pai como um pedido de reconciliação. O presente foi aceito, mas era tarde demais pra tê-lo de volta, seu neto já começando a revolta familiar dos adolescentes, mais uma vítima do ciclo perpétuo de desequilíbrio hormonal que define nossas vidas. O garoto era tão rebelde quanto eu era na sua idade, se recusando a tomar parte nos negócios da família. Por um tempo eu tentei mantê-lo próximo e agora queria não ter desistido. Como eu sinto a falta dele, daria tudo pra poder abraçá-lo mais uma vez. Mas naquela noite, queria ficar longe dele. Longe da casa, da esposa, da hipoteca, das contas. Longe de mim.

     

    Entrei no carro e dirigi sem rumo olhando os letreiros luminosos e as placas, inventando jogos mentais enquanto vagava. "Na terceira placa de proibido estacionar eu viro a direita", "mudar de faixa toda vez que passar por um careca". Era o que podia fazer pela diversão, o rádio estava quebrado a meses. Sempre me dizia pra lembrar de consertá-lo e esquecia assim que deixava o carro, gastando o dinheiro em outras coisas. Depois de algum tempo fazendo isso, cheguei a uma parte desconhecida da cidade, um bairro mais pobre até do que o buraco onde eu morava. "Toca de marmota" eu a chamava. Não tanto pelo espaço, mas pelo cheiro de serragem da marcenaria vizinha. Esse local parecia que seria até melhorado com uma marcenaria. Apenas bares, prostitutas e pedintes. Havia alguns trocados no meu bolso, e nesse meio, eu era um rei.

     

    Estacionei em frente a um bar com letreiro vermelho, algumas letras dele estavam queimadas. Li o nome várias vezes, cada vez soando diferente. Parecia escrito "ALambique DE leDA ROSa". Era mal iluminado e escondido entre casas de tijolos marrons grandes, com um beco escuro coberto de lixo. Parecia bom o suficiente pra mim.

     

    O lugar era pequeno e fedia a cigarros baratos e vômito. Três homens com cabelos desgrenhados se engraçavam com uma mulher velha com maquiagem pesada e roupas curtas demais pra uma moça respeitável. Alguns outros se divertiam jogando sinuca enquanto outros observavam afastados com olhos e mentes inebriadas. A maioria velhos e desdentados, outros apenas feios e desgastados pelo trabalho, sol e alimentação ruim, mas de algum modo ainda felizes com seus olhos amarelos e cabelos mal cortados. Escolhi me sentar em frente ao barman, ao lado de outros três bancos vazios. Não era o tipo de lugar onde as pessoas faziam filas pra entrar e eu preferia evitar conversa, usando meu tempo pra fazer planos alimentados por álcool, planos que eu nunca faria.

     

    O dono do bar, um sujeito barbudo e gordo, não era um daqueles homens que às vezes aliviam a dieta e ocasionalmente perdem o jogo de fim de semana, e sim, literalmente redondo, seus braços flácidos se agitavam enquanto esfregava um copo, as cinzas de seu cigarro manchando-o novamente. Ele se aproximou de mim e com uma expressão desconfiada e resmungou algo sobre bebidas e ali não ser um lugar para estranhos. Pensei por um momento que esse era um dos motivos de tão poucas pessoas frequentarem o bar.

     

    Nunca fui de seguir conselhos, na maioria das vezes, fazia exatamente o oposto. Foi assim que a conheci, Lisa, quando me recusei a fazer a entrevista no escritório de um amigo do meu pai. Naquele dia eu me desviei do caminho e segui pro parque, onde encontrei pela primeira vez a garota que mais tarde seria minha esposa. Me lembro de como o sol estava quente e de conversarmos a tarde toda. Naquele dia, me senti corajoso. Me senti no topo do mundo e nunca mais aceitei outro conselho. Na maioria das vezes, me saía muito bem fazendo do meu modo. Dessa vez, eu deveria ter concordado. Como naquele dia, minha vida teria um rumo totalmente diferente.

    Pedi uma dose dupla de conhaque que só foi servida ainda a contragosto após eu mostrar uma nota gorda e me pus a assistir a partida de sinuca. Parecia o mais interessante a se fazer. Comecei a calcular os pontos. O jogador a direita, um homem com cabelos encaracolados e um bigodinho fino, quase cômico, estava na vantagem sobre o moreno de regata. Provavelmente estavam apostando algum valor, pois as jogadas eram bem calculadas e esses homens em particular não bebiam nada nem olhavam para nada longe dos poucos metros ao redor da mesa.

     

    Não sei dizer quanto tempo se passou até eu notar que o banco ao lado estava ocupado. Foi apenas quando o copo dele foi servido e ele se aproximou de mim que me dei conta de sua presença. O homem estava ali, olhando pra mim, como um adulto olha uma criança abandonada. Via sua expressão curiosa pelo canto do olho e me senti constrangido, como quando meu pai me esqueceu no supermercado e eu vaguei pelos corredores até uma mulher loira me encontrar. Ela me olhou com o mesmo olhar e me abraçou antes de me levar de volta a ele. Era o mesmo olhar.

     

    Sabia que ele continuaria olhando, então decidi eu mesmo quebrar o gelo. Levei o copo a boca e dei um gole longo, seguido por um suspiro. Falei pra ele que o jogador deveria ter acertado a bola azul. Ele continuava olhando pra mim, mas agora um sorriso transparecia. Não me lembro de como era seu rosto, mas o sorriso estava lá. Ele me disse que eu podia ver, era especial. Eu disse que as regras do jogo beneficiavam a sequência de números e assim ele faria mais pontos. Ele riu. "Não, você é especial". Ele falava com tal certeza, que eu não podia duvidar que era verdade, ao menos pra ele.

     

    Pela primeira vez, eu olhei diretamente pra ele, sua expressão enigmática me deixava confuso se tratava-se de um bêbado, louco ou um bruxo. Por um momento, eu apenas olhei, tentando entender o que ele queria dizer. Cada vez que eu tentava olhar pro meu copo ou pro jogo, ou apenas desviar o olhar, se tornava mais difícil. Ele parecia sugar minha atenção como um buraco negro. Ele me disse que podia me ajudar a ver, só precisava atravessar os portões. Dessa vez eu ri, mas por dentro me senti desconfortável.

     

    Algo nos olhos dele pareceu se mover, como algo que cruza por trás de nuvens. A silhueta esteve lá por menos de um segundo. Lembro de pensar que deveria ir mais devagar com a bebida e descansei o copo no balcão de madeira. Os homens na mesa de sinuca continuavam a se divertir, alheios ao meu drama. O bigodinho ajeitou as bolas em suas posições iniciais. Pra mim, a partida parecia distante. Olhei  novamente para o homem misterioso ao meu lado.

     

    Ele disse que podia mostrar o mundo como realmente era, se eu quisesse. Que tudo faria mais sentido sem as ilusões dos sentidos. Eu disse que usava óculos de leitura, mas em geral tinha uma visão muito boa e não estava interessado no que for que ele estivesse vendendo. Então sua voz ficou mais baixa e ele sussurrou que não é necessário olhos pra realmente ver. O sorriso no rosto dele desapareceu. Ele pousou a mão sobre meu copo, cobrindo a borda e sussurrou palavras que não compreendi. Quando retirei minha mão, não pude acreditar no que via. Estaria eu sonhando ainda na minha cama, minha imaginação criando magos e criaturas oníricas. Eu acordaria seguro na minha cama no frio da madrugada ensopado de suor, mas seguro, certo de que era apenas um pesadelo. Ou as criaturas demoníacas no reflexo do meu copo seriam reais, sua dança macabra a um ritmo inaudível tão complexa e hipnotizante quanto arrepiante.

    Ele me disse que eu sabia a existência de Aldedaros, mas havia esquecido. Que poderia me dar os sentidos adormecidos. Senti meus ossos tremerem pelo nervosismo, minha garganta afogando o riso agudo. Me lembrava de meus pais me contarem de que quando era criança, precisavam me levar ao templo todos os anos. Algo precisava ser controlado dentro de mim. Algo poderoso e desconhecido. Eu queria saber, mas tinha medo. Eu me lembro de olhar pra ele, seus olhos escuros. "Há muito mais a ver, se você realmente desejar" ele disse. A luz não refletia em seu rosto. Ele não tinha sombra. Eu aceitei.

     

    Ele me levou em direção a porta e para dentro do beco, mas o corredor pareceu se alongar. Não importava o quanto andávamos, o caminho parecia ainda mais distante, cada vez mais escuro. Os sons da conversa animada do bar ficaram mais distantes até desaparecerem, sendo substituídos por um som grave e monótono de tons alternados. Ele me levou em direção ao centro, onde toda luz parecia convergir e de repente estacou. Sua voz soou grave e quase incompreensível. "O preço da verdade é o entendimento". Eu juntei minha coragem para responder "Do quê?", minha voz saiu fraca e metálica. Ele ergueu sua cabeça, seu rosto inexpressivo parecia murchar e se expandir, com um movimento ritmado. O apêndice bulboso que era seu rosto começou a se romper e seu corpo se moveu de modo estranho, algo se movia por dentro de modo grotesco, rasgando pele e carne que caia em tiras. A criatura dentro dele se levantou, esticando os braços anormalmente longos a sua extensão completa. Ela se impôs sobre mim, seus dois metros e oitenta, de uma matéria sombria e disforme. Finalmente ele falou novamente "De saber que tudo que enxerga é uma mentira e sua vida acaba agora".

     

    Meu coração batia uma vez a cada 3 segundos. Toda luz sumia em seu corpo. Todo calor era absorvido. Mal podia respirar. Ele moveu a garra em minha direção. Eu não podia gritar. A garra penetrou o topo do meu crânio, suas pontas etéreas atravessando meu cérebro. Eu gritei sem som e meu sangue congelou com meu terror. Sentia frio e dor. Não a dor que meu cérebro cria em resposta a ferimentos, por mais profundos, não este tipo de dor. Era uma dor infligida pelo próprio mal. Era a inexistência da morte consumindo minha alma. Era o fim. Meus olhos se fecharam com a agonia e tudo se apagou.

     

    Quando abri os olhos novamente, estava dentro do meu carro e ainda era noite. Olhei pelo espelho e meus olhos estavam escuros e minhas veias dilatadas. Sentia o suor escorrendo pelo meu pescoço. As sombras ao meu redor pareciam se mexer sozinhas e eu tive que sair do carro em direção a luz de um poste próximo pra evitar desmaiar. Ao agarrar o poste, senti as lágrimas jorrarem. As sombras, elas se aproximavam, circulando o fraco globo de luz a qual eu me agarrava. Eu corri o quanto meus pulmões aguentaram.

     

    Elas estavam lá. As criaturas de sombras amórficas como o meu salvador, andando e as observando, seus corpos pulsando e se transformando, curiosas, enquanto as pessoas continuam suas vidas ignorantes de sua presença. As vezes, elas pareciam os empurrar, as vezes se prostravam na frente deles, que sem saber por quê, mudavam de direção. Elas os moviam como marionetes. Exceto que essas "pessoas", tinham almas tão corrompidas quanto os corpos de seus manipuladores. Eu sei, eu posso vê-las.

     

    Eu as observei a distância, tentando entender sua natureza. Algumas almas se assemelham a animais, com focinhos e pêlos onde deveriam estar boca e nariz. Outras tem buracos, tentáculos e órgãos cuja utilidade não consigo imaginar. Elas emitem sons bizarros que atormentam meus sentidos. As criaturas as açoitam e retiram pedaços de suas almas, reencaixando-as em outras pessoas. Muitas vezes eu vi as garras sombrias dilacerando as criaturas semihumanas e às vezes elas decidem não reformá-las. Quando os espectros movidos pela curiosidade ou malícia, as abandonam incompletas, elas se enfraquecem, tombam e morrem.

     

    Todas as almas que encontro estão manchadas pelos demônios e eu imagino se eles são os criadores desse mal ou apenas o consomem. De qualquer modo, eles parecem se juntar onde há mais pessoas, então tenho evitado ambos o quanto pude. O pensamento de ir pra casa foi logo descartado. Tremo ao pensar no que encontraria. Estaria a sua alma tão podre quanto a dos meus perseguidores? Estariam eles lá a esperar por mim, apenas para ter a satisfação de ouvir meus apelos enquanto trazem um destino pior do que a morte a você e nosso filho? Eles sabem quem eu sou. Não aguentaria a possibilidade de encontrar vocês como um dos demônios.

     

    Quando notam que eu estou as observando, elas se aproximam de mim, emitindo seus sons graves e desconexos. Quando me alcançam, suas garras gélidas trazem a dor do vazio enquanto me açoitam. Posso sentir seu divertimento com meus gritos e esforços enquanto tento evitar seu toque. Por mais dor que causem, por mais que eu grite e implore pela morte,  eu sempre acordo, apenas para ser caçado novamente. Não sei se estou na terra ou mesmo se estou vivo. A cada dia estou menos certo de minha sanidade.

     

    Vaguei por vários dias tentando encontrar novamente o bar, mas o labirinto de becos e ruas parece sempre me levar de volta. O nome Aldedaros queimado na minha mente.

     

    Tive que me mudar para o cais. Elas parecem não se aproximar muito do mar e isso me manteve seguro por um tempo. Ontem, eu ouvi algumas delas perto das docas, seus graves murmúrios me mantiveram acordado a noite. Elas tem me procurado e só Deus sabe o que vão fazer quando me encontrarem. Não aguento mais. Preciso acabar com isso hoje. Sinto muito, Lisa.


      Data/hora atual: Ter Dez 18, 2018 6:22 pm