O Homicídio Perfeito

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    O Homicídio Perfeito

    Mensagem por raulplay em Sab Nov 16, 2013 10:24 am

    O velho retornou dois dias depois de minha visita sorrateira aos seus aposentos. A partir de então, passei a evitá-lo. Quando casualmente nos encontrávamos, eu o tratava com extrema cortesia. E com atenção devotada, quase subserviente. Não poderia despertar suspeitas, mínimas que fossem.

    Duas semanas após a corrupção da ampola, o velho Hiena desceu aos infernos. Exultei, consciente de que havia cometido um crime perfeito. Uma obra-prima no extenso rosário de delitos jamais descobertos.

    Compareci ao funeral, respirei com satisfação o aroma dos cravos-de-defunto e protestei por segurar-lhe uma das alças do ataúde, no que fui prontamente atendido por meia dúzia de parentes entediados.

    Foi no retorno do sepultamento que apareceram os primeiros sintomas. De meu nariz fluiu um sangue espesso, pegajoso como catarro, em golfadas tão caudalosas quanto perenes. O Hiena não era tão leve quanto eu supunha; assim, atribuí a estranha hemorragia ao inútil esforço que fizera ao sustentar-lhe o caixão de madeira de lei. Mas eu estava completamente equivocado. Quando veio o diagnóstico, eu já definhava:

    – Contaminação por metal pesado. Lamento, senhor, mas não há o que a Medicina possa fazer.

    Como era ladino o Hiena, a quem imaginei proporcionar um fim rápido e indolor! Como foi sagaz, pondo a chave do apartamento praticamente em minhas mãos, instigando-me à incursão noturna. E como foi arguto ao simular uma viagem a Poitiers. Ele me atraiu à ratoeira, depois de examinar atentamente os meus hábitos. Não foi à toa que o velho deixou ao meu alcance o cravo fresco, ainda úmido, mas impregnado de humores cancerígenos... Não foi sem propósito que me atirou aos terrores de uma morte lenta, dolorosa e cruel.

    Mas o que me consome e exaspera é saber, nos dias de hoje, que fracassei. Que minha argúcia fora o fio condutor da minha própria ruína. Eu não sou o ás. Sou um homem a quem a humilhação pesa mais que um sudário. Sim, o velho não padecia de mal crônico algum, nem dependia de remédios para sobreviver. Somente agora percebo o que era evidente. A geladeira e os medicamentos eram uma farsa. Pura mise-en-scène.

    A morte do Hiena, para o meu horror, fora absolutamente natural...


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    SABE O LADO RUIM DE TE MATAR?
    É QUE EU SÓ POSSO FAZER ISSO UMA VEZ

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